terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Casal para Nelson"



Fui enlaçada pelas palavras que este menino utilizou com um olhar único, poético, sobre uma “menina que logo moça virou mulher”.
Apaixonei-me pelo conto.
No princípio não percebi as vírgulas de grande malícia que pontuavam cada respiração da menina. Fui com um primeiro olhar inocente, mas tudo foi se encadeando e pude constatar a inspiração e criação "TitoRodrigueana".
Com o desenrolar do conto a menina cresceu e cresceu também sua audácia, sua leviandade e sua dor. Fascina a forma como o Tito finaliza o conto. Envelhece a personagem com a redenção e penitência indireta pelos seus atos imorais da juventude em uma vida conjugal nada feliz.
O encontro do conto com a peça coroa esta relação de casal, “Casal para Nelson”, que apesar de utilizar o conto como fundação, só o apresenta no subtexto da pequena peça.
Este texto para mim é muito expressivo, marcante e exige de mim uma densidade ainda não experimentada.
Agradeço ao Tito por esta oportunidade e tenho orgulho de tê-lo como amigo, colega de trabalho, diretor, afilhado... sempre.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

biscoito da sorte

no parapeito do 23º andar a lágrima cai



é tão imprevisível estar vivo



a mensagem do biscoito da sorte chinês a faz rir



uma palavra define todo um futuro que ela escreveu nos pensamentos inseguros.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

tintin

Coça o nariz com o pelo do gato nos olhos

comemora com a saia da boneca queimada nas idéias

amassa o chancliche regado a muito azeite

lava com vinho derrubado as risadas presas

contraria tarde o bom homem que acorda cedo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

pensamento voador


duas madrugadas sem dormir em pensamentos que me levam a várias estações.
a lâmpada do abajur não deve se apagar antes das pestanas pesarem.
se eu as apago por apagar é condicional para que os pensamentos fujam da razão.
mesmo tentando prendê-los pelo controle da respiração eles voam.
ninguém consegue segurar uma borboleta depois que fica acima dos dedos mais longos.
mas eles não ficam somente na estação do que é irreal e talvez inalcançável.
agora também transitam pelas realizações presentes de alegria e luz.
são pacificados pelo conhecimento que penetra pelas pestanas através dos olhos de vidro.
e sentem-se empolgados por cada nova identificação com seus ancestrais.
personificam o prazer por si e pelo outro que os toca em sonho.
e assim fazem adormecer sem a consciência de qual foi a imagem que os imobilizou.



sábado, 2 de outubro de 2010

"cola do blog do meu amigo Dyl"



Crítica: Momento inquietante na Praça Roosevelt
Por Luciano Maza (SP) - Caderno Teatral
Bernard-Marie Koltès (1948-1989) é o principal nome da dramaturgia francesa da segunda metade do século XX e seu autor mais encenado no mundo. Sua obra é marcada pela força da linguagem que transita entre o coloquialismo e a poesia, e também pelo retrato contundente de um universo marginal com personagens que lidam com a violência de uma realidade crua, excludente e solitária.

Temas muito caros também ao grupo brasileiro Os Satyros que ao longo de sua História travou diálogo com textos que abordam a marginalidade social, assimilando a questão presente no dia-a-dia do coletivo que se localiza numa região degradada da cidade de São Paulo e que até sua chegada estava abandonada e habitada por figuras como traficantes, drogados, trombadinhas, prostitutas e travestis que carregam em si a tragicidade do submundo.
É de se festejar o pertinente encontro entre a companhia paulistana e o autor francês com a montagem de “Roberto Zucco", seu último texto - encenado pela primeira vez apenas um ano após sua morte, na Alemanha. Na peça o dramaturgo toma a História real do famoso serial killer italiano Roberto Succo: um jovem perturbado que entre 1987 e 1988 matou diversas pessoas em países da Europa depois de fugir da prisão psiquiátrica em que estava por ter matado o pai e a mãe anos antes. O Zucco da ficção é apresentado sem julgamentos e sem camadas psicológicas, o que o autor faz é mostrá-lo nas situações em que se encontra, sem se preocupar em explicar o porque chegou até elas ou dissecá-las moralmente. Também não defende o ponto de vista do protagonista, não caindo assim na armadilha de martirizá-lo como muitas vezes acontece quando um autor tenta justificar os atos de um personagem maléfico. Acompanhamos em quadros o olhar oblíquo do personagem, sua mente doentia e a saga por sobreviver numa condição que desde o início está condenada à morte, como um herói trágico destituído de boas inteções. São fragmentos que mostram seu reencontro com a mãe antes de assassiná-la, seu envolvimento com uma menina inocente e como isso afeta a família agonizante da mesma, suas idas à um bordel onde parece sentir-se um pouco menos desconfortável e seus encontros com personagens do cotidiano das ruas, do metrô e de uma praça onde conhece uma mulher elegante, símbolo da burguesia que no fundo tem consciência de que algo está errado, mas espera um acontecimento externo para agir ou reagir. A força do texto é a própria força deste personagem, protagonista absoluto, e a estranheza de sua linguagem e estrutura dramática que provocam uma inquietação ainda maior nos espectadores. A direção é de Rodolfo García Vázquez (também tradutor do texto), um dos maiores criadores de imagens do teatro brasileiro. Utilizando poucos recursos e trabalhando muito bem suas iluminações, o diretor consegue efeitos de forte plasticidade com o estilo algo sujo e espectral que lhe é peculiar. Agora não é diferente: o encenador cria ótimos momentos na montagem, em especial as cenas coletivas como a do final e a do parque - a melhor do espetáculo, ápice criativo e de condução dos atores -. É de se destacar também o excepcional uso do espaço físico - em pesquisa espacial já iniciada em “Hipóteses Para O Amor e A Verdade” -, o recurso das arquibancadas móveis é muito interessante ao localizar em diferentes lugares os quadros que compõem o texto, movendo nosso olhar perante a cena, ampliando e reduzindo os ambientes de ação e dando ritmo à sequência. Os movimentos não são em nenhum momento gratuitos e são precisamente executados. O jovem elenco forma um conjunto que em diferentes níveis responde bem às necessidades da encenação. Robson Catalunha encara a difícil tarefa de viver o protagonista, tendo um típo físico mais franzino que o personagem demanda. É visível seu esforço e empenho, mas lhe falta algum peso; sua surpresa está na sensibilidade do olhar que constrói para o psicopata e que chama atenção na cena em que dialoga com a mulher e seu filho que será morto por ele. Julia Bobrow perpassa as emoções apaixonadas da jovem menina sempre de maneira verossímil, há uma infantilização na figura que desenha com quase malícia e que de certa forma a limita, mas o reencontro de sua personagem com o protagonista ganha força graças à seu bom trabalho. Cléo de Páris como a irmã da menina utiliza o exagero do expressionismo nas duas cenas em que contracena com outros atores, acertando o tom na segunda, já em seu solo libertário exibe um belíssimo momento de atuação quase performática. O grande destaque do elenco fica com Maria Casadevall no papel da mulher que é sequestrada pelo personagem principal e nutre por ele uma espécie de fascínio ao tirá-la da comodidade da vida medíocre. A atriz surpreende em todo tempo que está em cena, alcançando a estranheza necessária para não cair no realismo das reações convencionais que a situação traria, dando o exato sentido inerte que esconde o desespero da personagem. José Alessandro Sampaio como o irmão da menina e Elaine Grava como a mãe do protagonista e madame do bordel estão corretos em seus personagens. Completam o elenco Dyl Pires, Diney Vargas, Victor Lucena, Priscilla Leão, Katia Calsavara, Marcio Pellegrini, Cristiano Dantas, Thadeo Ibarra, Cláudio Wendel, Ricardo Campanille, Renan Pena, Aline Leonello e Julia Ornelas.
Imperdível, “Roberto Zucco” é mais um grande momento artístico do grupo da Praça Roosevelt.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

pé lindo e feliz!



Sim!Com um lindo sorriso que não vê nos olhos a algum tempo. Ele é grato pelos dias de sol ou nublados. É tão lindo que não permite que falem mal da nuvem e o tempo cinza que também é lindo. O cheiro da chuva que embaraça os cabelos, mas irriga os ares dos pulmões secos.
Para lembrar sempre e voltar neste. Neste que dá glória por estar viva com saúde dos fios do cabelo a unha do pé que a sustenta no passo livre. Eles podem ficar marejados por algum tempo, mas lembre da ficha que caiu depois de um longo tempo. Saiu da "matrix" e viu tudo mais real, mais sentido, mais pensado.
Não volte para a existência que vive nas ilusões das aparências de dentro da "matrix". Voltar para "matrix"? Lá você não pensa, lembra?
Vai sempre ter algo dentro de você que tem de ser controlado. Esse algo dentro que é sugestionado pela mídia ou pelos que lá estão conectados e não percebem.
Não seja abduzida novamente, pelo simples prazer de fazer parte dela só para comprar o sapato novo e a espaço-nave para sair de lá.
A beleza dos dedos, do peito, das unhas, do calcanhar são únicas e especiais sim. Não ligue para os que pensam que são menores ou iguais.
Encha a alma como um balão que não estoura nunca e pode ficar mais cheio, mais colorido, mais bonito... Então inspire, puxe o ar mais e mais... e imagine o tão lindo q vai ficar!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

o papel branco



ela sentiu sem bater a hora. ninguém precisou avisar. ninguém repara. não, não coincide com a tensão do antes de lembrar que é uma mulher. esta vem depois a cavalo com um felino de olhar comovedor na garupa. olhar que faz olhos ficarem secos num saldo de apenas vinte minutos ao dia. procura por entre as coisas jogadas na cama, onde foram parar as certezas, que variam de acordo com a temperatura do dia. o papel branco em cima da mesa não conta as anotações que devia ter feito para si da última vez. da última vez, pensou que havia pensado acertadamente sobre o que fazer. mas agora tudo se foi novamente. apagou-se ou não ficou legível o tal do pensamento acertado. vai ter que refletir mais uma vez e tentar chegar noutra conclusão. conclusão que não a leva para lugar algum, só mais a dentro da neblina da montanha.